quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

De repente a vontade de sair de trás daquele balcão -no qual ela ficava o dia inteiro vendendo produtos de todos os preços para todos os gostos- e correr para aquela chuva de gotas medianas que tinha uma velocidade constante, indo de encontro com o asfalto desgastado da rua que ficava de frente pra vitrine da loja que ela trabalhava,falou alto dentro de si. Embora isso não fosse o suficiente para estar debaixo daquela chuva tão atraente, ela começou a se imaginar sob ela. Gostou do que mentalizara e por isso sorriu um sorriso pequeno. Só estar na chuva não bastava, tinha que ser bonito. Então ela mentalmente introduziu uma música de fundo de uma banda norueguesa, que recentemente havia descoberto. E em um piscar de olhos, a imagem era perfeitamente nítida em sua imaginação. Sob a chuva, cabelos escorrendo água, a roupa molhada tornando uma só com a sua pele, o sorriso molhado e dançando no ritmo da música de olhos fechados. Ela queria que alguém a admirasse, e era necessário que ele estivesse lá, sem que isso fosse notado mas que no fundo ela saberia da presença dele. Logo, mergulhado nas gotas que deslisavam seus lábios, seios e quadris, encostado em uma parede onde a chuva não o alcançaria, fumando sutilmente seu cigarro, estava ele com um semblante que revelava apenas seu discreto desejo por ela...
''É hora de ir embora moça, não há mais nada a fazer. Até amanhã.'' Era seu colega de trabalho, desmanchando toda a imagem, construída com tanto cuidado, como a própria fumaça do cigarro do dito cujo se desmanchava no vento. Era só uma lembrança, apenas uma lembrança que jamais seria esquecida e que jamais se desmancharia com o tempo. Ela de fato vivera aquele momento.