Era uma sala relativamente pequena de um apartamento localizado no centro da cidade. Estavam reunidos em torno dela, e a mesa que deveria estar no centro, estava encostada em um armário para que nada atrapalhasse o entrosamento das pessoas naquela noite. Era natal e haviam sete mulheres e seis homens distribuídos por aquela sala.
Ficou decidido que uma das mulheres tocaria uma música no violão para promover o bem estar de todos. Era o primeiro natal do casal. Ele feliz e ela afogada em seus pensamentos tolos. Assim que o som do violão invadiu todo o ambiente, Anne Lise, ainda em seus pensamentos, deu bem de cara com o dia em que a sua vó morrera. Faziam somente 3 meses que ela partira. E nesse devaneio, ela se lembrou dos últimos momentos de sua querida vó...
Era sábado, numa tarde em que o sol provocava sonolência em todos que estavam cansados de acordar cedo. Anne Lise era uma dessas pessoas. Queria dormir. Precisava dormir. E chegando em casa, após seis aulas do curso pré-vestibular, só haviam duas metas a ser alcançadas: almoçar e descansar. Chegou tão sedenta, que nem cumprimentou quem estava perto. Serviu-se e sentou-se ligeiramente a mesa, e com o prato diante de seus olhos, pôde ver sua vó, em segundo plano, sentada na cadeira de rodas próxima a janela da sala. E por um instante passou por sua mente: ''Nem dei um beijo na minha vózinha... Mais tarde eu dou.'' A fome e o sono, eram maior que qualquer coisa ali.
Passaram horas, e Anne Lise ainda estava entregue ao colchão e travesseiro. Até que uma movimentação diferente pertubou seu cochilo. Era a sua mãe, afobada, desorientada. Acordou meio cambaleando e seguindo a movimentação, encontrou sua vó sentada na cama junto a uma amiga de sua mãe, com os olhos estatalados e uma palidez assustadora. Ficou perplexa diante daquela situação, sem saber o que fazer. Todos se apressando para irem a um hospital e Anne Lise ao lado de sua vó vendo o olhar estagnado dela. Tentou lhe chamar a atenção dizendo que a amava, mas aparentemente foi em vão. Anne Lise preferiu acreditar que ela tivesse ouvido e retribuído o carinho. A situação era mais séria do que Anne imaginava ser, sua vó seria internada. Impossibilitada de ir na cadeira de rodas até o veículo, Anne Lise se viu apavorada carregando-a em seus braços até o carro. Disse mais uma vez que a amava e a levaram-na...
Fora a última vez que ela viu sua vó ainda viva- por mais que estivesse tão distante do que era em seus últimos momentos. Suspirou, voltou para o presente com os olhos úmidos das recordações. Se destraíra tanto que quando dera conta de si, a música já havia acabado e estavam falando sobre o significado de se reunirem no natal, de estarem em família. Então Anne Lise ouvindo aquelas palavras, não se sentiu triste por lembrar de sua vó, mas se sentiu amada e bem, por ter amado tanto. Pois então, era natal! Um natal diferente dos outros...
