sexta-feira, 8 de março de 2013

Hoje não precisei me esforçar para refletir sobre algumas questões que insistem em permanecer. Isso aconteceu talvez porque o céu acordou meio nublado, tornando visível os embaraços que estão dentro de mim. Diante disso, foi inevitável não me questionar: Onde estão aquelas crenças que antes definiam quem eu era? Por qual motivo elas fugiram de mim?
E foi fazendo tais perguntas que constatei que meu coração lamenta todas as traições cometidas contra tais crenças, que lamenta todas as hipocrisias feitas de olhos fechados, todos os desejos daquilo que não me pertence mas que eu insistentemente alimento-os por puro egoísmo, todas as palavras que deveriam permanecer no silêncio profundo mas que profanamente as pronunciei, das juras de amor que nunca existiram, da vontade insana de estar com você... Completamente com você... Um dia, quem sabe...
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Lascas

                     Estou no serviço encarando a lasca que fiz no meu dedo polegar da mão direita com os dentes. O sangue ameaça sair, caso eu tente puxar o restante de pele que está elevada. Sim, eu deveria parar de açoitar meus pobres dedos, mas isso é muito difícil! Na verdade, o que é difícil é a tentativa de mudar um hábito que foi adquirido há muito tempo. Tantas coisas que deveriam mudar em nossas vidas... Mas como modificar tais hábitos? Como se desprender de um comportamento que acompanhou toda a evolução do meu ser? Que esteve comigo nos momentos mais agoniantes e mais ansiosos da minha vida? Que me proporcionou reflexões para tomar grandes decisões?  (questionamentos e mais questionamentos)........................
                     São nessas horas que eu fecho os olhos e peço que você venha e me abrace; que me permita imaginar que tudo ao nosso redor está devidamente em seu lugar, do jeito que deveria estar, sem lascas de sangue nos dedos das mãos, sem rugas na testa, sem tudo aquilo que um dia nos afligiu... E sim, perfeito para podermos gozar daquilo que a vida sugerira que vivêssemos...

quinta-feira, 24 de maio de 2012

19/05/12 - felicidade clandestina


Sim, eu estou deitada no chão da varanda da minha casa, sobre uma canga de praia toda estampada em desenhos de estrelas do mar e conchas coloridas, com um cobertor em cima de mim que na etiqueta dizia ser 100% poliéster e um travesseiro aconchegando minha nuca. É noite, por volta das 22 horas. No céu da minha varanda há poucas estrelas. Os arames do varal estão postos sob a minha visão. A luz do poste que ilumina a rua, também ilumina minha varanda e dá um efeito que me agrada muito. São daquelas luzes amarelas das quais me fazem lembrar de casas de madeiras, um bom mpb ou um bom jazz, velas, romance, carta envelhecida, novela das oito...
Neste instante o frio é tanto, que uma névoa surgiu no céu embaçando toda a sua escuridão. A noite está perfeita e apesar de estar sozinha, estou feliz por deslumbrar deste momento. Feliz por não precisar estar com alguém para me sentir completa. Feliz por conseguir extrair toda a beleza deste momento, sem ser necessário provar isso a alguém. Obrigada Noite!


domingo, 8 de abril de 2012

Além do que pode ser visto, pode ser entendido

                   Os ônibus passavam e ele nem se movia do assento do ponto com o jornal nas mãos. As pessoas o olhavam esperando que ele reagisse, mas não, nada se movia- a não ser as pálpebras e o diafragma- o velho continuava intacto. A expressão cansada, os olhos fundos, as rugas revelando a amargura das lembranças, camisa cavada cinza com uma logomarca desconhecida, bermuda esverdeada e uma crocs hover slip on azul marinho. Talvez ele quisesse ficar assim para sempre ou ainda, ser abordado por alguém que lhe perguntasse o motivo de estar ali há exatamente 10 horas sem se mexer. As pessoas depois de um certo tempo, começaram a murmurar supostos motivos de ele estar ali: '' Ele deve ter morrido de olhos abertos.'' ''Não, ele perdeu um ente querido!''. ''Esse velho vagabundo matou alguém.''. ''Ele deve estar sentindo tão só...'' E várias vozes davam entonação a sentimentos tão profundos de um velho paralisado em um ponto de ônibus.
                   Quais eram suas recordações? Talvez ele tivesse amado, amado muito, alguém que nem chegou a conhecer ou talvez, ele nunca conseguira sequer amar alguém que sempre esteve tão perto dele. Talvez houvesse milhões de recordações passando diante de seus olhos ou, talvez, nenhuma. Tantos talvezes. Tantas oportunidades. Tantas vidas jogadas nas lembranças. Tantos ônibus que se passaram, passaram e passaram... E não provocaram nenhuma mudança na feição daquele velho. ''Velho maldito!'' Uma pessoa gritou ao longe. E por incrível que pareça, ele movera a cabeça lentamente em direção a voz. O velho olhou fixamente a pessoa, e sem mexer muito os lábios, começou a balbuciar, com uma voz bem baixa: ''palavras mal ditas, palavras malditas...'' Repetiu inúmeras vezes.
                   Olhares incompreensíveis naquele ponto de ônibus tornavam o ambiente confuso e injusto, e ainda assim, o velho continuava sentado, movendo as pálpebras, o diafragma e agora os lábios e as cordas vocais. Era segunda-feira, as pessoas estavam cansadas e sem a compreensão nos olhos para enxergarem com nitidez...

quarta-feira, 28 de março de 2012

''Sempre ouvi que vemos a vida toda passar num segundo antes de morrermos. Primeiro, aquele segundo não é realmente um segundo. Ele é eterno, como um oceano de tempo. Para mim seria me ver...''
... Na varanda de minha casa, nos meus 6 anos, ouvindo o som de uma furadeira e acreditando que seria um gigante disposto a destruir eu e meus avós; Nas noites em que minha vó me socorria, me protegendo da escuridão, deitando-se comigo e segurando docemente minha mão; tocando a gaita- mesmo sem saber toca-la- para a minha primeira cachorra; sendo conduzida de ônibus pelo meu vô, por toda a cidade; deitada contemplando as estrelas com o meu primeiro amor; comendo os bolinhos-de-chuva feitos pela minha vó; observando o  menino que arremessara sua escova de dente no telhado de minha casa; fingindo morar na Tok Stok; andando na chuva sem pressa; sorrindo sem me preocupar com a feição bizarra que estivesse fazendo; sentindo a presença de Deus escutando uma música; contemplando a beleza da velhice; o pôr-do-sol do pão-de-açúcar; a noite repleta de vaga-lumes... Contemplando a vida, nas suas coisas mais simples e tão complexas.

Beleza Sul-Americana da madrugada

                    Fiz minha casa no sofá. Quando olhei para o lado, vi uma espécie de coró no estofado do tal sofá. O encarando, não pude vê-lo se mover. Olhei para frente, fiquei alguns segundos assim e voltei a cabeça para o lado para o olhar novamente. Não acreditava no que via. Ele havia pensado em morar ali antes de mim. Isso era um absurdo, aquele sofá era meu. Tirei o cobertor de cima de mim e levantei para procurar meu Mp4. Precisava ouvir algo que me distraísse. Assim que o encontrei voltei para o meu novo habitat. Olhei novamente aquele ser que abrigava meu espaço e não o parei de olhar. Estava inconformada. Tentei relevá-lo ao escolher uma música. Hum... Que tal Losing my religion? Sim, seria o ideal. Espere! Preciso organizar minhas ideias; primeiramente lembrando o motivo que me fez mudar para aquele lugar... Pauso. Fixo o olhar no controle remoto e depois me viro para ver o tal ser que agora se movimentava com tanta sutileza que daria para afirmar que estava paralisado. Como ele consegue fazer isso? Não consigo me mover sem que os outros não percebam. Isso é incrível! Queria ser como ele... Espere! O que estou fazendo? Idolatrando este ser intruso e mesquinho? Não. Não posso deixa-lo me persuadir assim. Quanta fraqueza de personalidade, hein ''Georgie boy''!
                  Neste momento, não tocava mais a música de R.E.M e sim The Beatles. Não queria ouvi-los, não era interessante para o momento. Desculpe Sr. Coró, mas terei que trocar a música. Espere! Não preciso de sua aceitação, ok? Sou auto-suficiente. Posso fazer tudo! Posso ser dona deste sofá, mesmo você estando nele antes de mim; posso pagar meu próprio café; posso ouvir Ac Dc mesmo conhecendo só uma música deles e posso ser feliz vendo um filme qualquer... Qualquer? Que hipocrisia dizer qualquer. Foi ele que me trouxe a este sofá, foi ele que me levou a uma excitação que até então esta noite não havia me proporcionado. Um filme cheio de mim e que despertou meu sono, me fazendo conhecer esse tal coró... Tornei a encara-lo, e vi o que antes estava na vertical, agora estava na diagonal. Ele fez isso em uma fração de segundos. Como pôde ter sido tão ágil e discreto ao mesmo tempo? Eu o invejei tanto, que me fez continuar com o olhar fixo sobre ele, enquanto em minha mente passavam-se várias imagens distorcidas. Uma dessas imagens me provocou um certo desconforto: era eu o lambendo e em seguida o mastigando com fúria, dizendo-o adeus da forma mais bela. Pude tirar algo construtivo desta imagem: Tinha que dar um fim neste vilão. Como o faria? Bem, se eu gritasse, alguém acordaria, viria desesperado e eu pediria a essa pessoa que o tirasse dali imediatamente. Esse alguém bateria a mão na testa, franzindo os olhos de tanto sono e diria com o coração palpitando: 'Que horas são? Mais de meia noite? Não acredito que você me acordara para isso. Sacanagem...' Enquanto eu estaria sentada com as pernas dobradas, os joelhos beijando meus seios e os meus braços promovendo esse encontro tão propício entre os dois. Eu balançaria a cabeça, acenando que sim, com uma feição de pavor misturada com uma prece de misericórdia... Isso era o melhor a fazer. E por que não, ouvindo The beatles-Come together? Sim, algo digno por favor, a um ser de beleza tão Sul-Americana.

domingo, 18 de março de 2012

O jeito é ser

             Em tudo havia um questionamento. Ela nunca estava satisfeita consigo mesma. Quando não era o modelo do corte de cabelo, eram as palavras pesando em sua auto-estima. Seu pensamento sussurrava coisas sobre o amor, a fé e as pessoas- essa última lhe trazia ideias embaraçosas.
             Ela queria um sinal divino, algo que a conduzisse a escolha certa. Estava profundamente exausta de sempre querer agradar tudo e a todos. Ela só queria ser. Só queria ir a uma sorveteria sem se preocupar com quem encontraria lá; dizer ''não'' sem se martirizar com a sua repercussão; estar só sem se sentir sozinha e sem a  obrigação de procurar alguma companhia; se decepcionar; se alegrar e se apaziguar sem que ninguém a notasse... No-tas-se. No-tas-s. No-tas. No-ta! Sim, essa palavra ecoava em seus ouvidos causando um extremo desconforto e emburrando seus tímpanos, isso  porque, para ''ser'' era necessário ser notado e ter notas boas que lhe trouxessem algum reconhecimento na tal ''escola da vida'' - será?
            Não conseguia ter notas boas. As vezes acreditava ter herdado isso de sua mãe. Na verdade, acreditava ter herdado as escolhas e até mesmo as oportunidades que sua mãe teve ao longo da vida. Será possível? Se perguntava a cada vez que alguém a dizia que ambas se pareciam muito. Tudo isso a atormentava bastante, a ponto de impedi-la de executar o que havia planejado para um dia comum... Ela só queria uma confirmação. Confirmação de algo que nem ela mesma sabia se existia ou não.