Os ônibus passavam e ele nem se movia do assento do ponto com o jornal nas mãos. As pessoas o olhavam esperando que ele reagisse, mas não, nada se movia- a não ser as pálpebras e o diafragma- o velho continuava intacto. A expressão cansada, os olhos fundos, as rugas revelando a amargura das lembranças, camisa cavada cinza com uma logomarca desconhecida, bermuda esverdeada e uma crocs hover slip on azul marinho. Talvez ele quisesse ficar assim para sempre ou ainda, ser abordado por alguém que lhe perguntasse o motivo de estar ali há exatamente 10 horas sem se mexer. As pessoas depois de um certo tempo, começaram a murmurar supostos motivos de ele estar ali: '' Ele deve ter morrido de olhos abertos.'' ''Não, ele perdeu um ente querido!''. ''Esse velho vagabundo matou alguém.''. ''Ele deve estar sentindo tão só...'' E várias vozes davam entonação a sentimentos tão profundos de um velho paralisado em um ponto de ônibus.
Quais eram suas recordações? Talvez ele tivesse amado, amado muito, alguém que nem chegou a conhecer ou talvez, ele nunca conseguira sequer amar alguém que sempre esteve tão perto dele. Talvez houvesse milhões de recordações passando diante de seus olhos ou, talvez, nenhuma. Tantos talvezes. Tantas oportunidades. Tantas vidas jogadas nas lembranças. Tantos ônibus que se passaram, passaram e passaram... E não provocaram nenhuma mudança na feição daquele velho. ''Velho maldito!'' Uma pessoa gritou ao longe. E por incrível que pareça, ele movera a cabeça lentamente em direção a voz. O velho olhou fixamente a pessoa, e sem mexer muito os lábios, começou a balbuciar, com uma voz bem baixa: ''palavras mal ditas, palavras malditas...'' Repetiu inúmeras vezes.
Olhares incompreensíveis naquele ponto de ônibus tornavam o ambiente confuso e injusto, e ainda assim, o velho continuava sentado, movendo as pálpebras, o diafragma e agora os lábios e as cordas vocais. Era segunda-feira, as pessoas estavam cansadas e sem a compreensão nos olhos para enxergarem com nitidez...