''Sempre ouvi que vemos a vida toda passar num segundo antes de morrermos. Primeiro, aquele segundo não é realmente um segundo. Ele é eterno, como um oceano de tempo. Para mim seria me ver...''
... Na varanda de minha casa, nos meus 6 anos, ouvindo o som de uma furadeira e acreditando que seria um gigante disposto a destruir eu e meus avós; Nas noites em que minha vó me socorria, me protegendo da escuridão, deitando-se comigo e segurando docemente minha mão; tocando a gaita- mesmo sem saber toca-la- para a minha primeira cachorra; sendo conduzida de ônibus pelo meu vô, por toda a cidade; deitada contemplando as estrelas com o meu primeiro amor; comendo os bolinhos-de-chuva feitos pela minha vó; observando o menino que arremessara sua escova de dente no telhado de minha casa; fingindo morar na Tok Stok; andando na chuva sem pressa; sorrindo sem me preocupar com a feição bizarra que estivesse fazendo; sentindo a presença de Deus escutando uma música; contemplando a beleza da velhice; o pôr-do-sol do pão-de-açúcar; a noite repleta de vaga-lumes... Contemplando a vida, nas suas coisas mais simples e tão complexas.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Beleza Sul-Americana da madrugada
Fiz minha casa no sofá. Quando olhei para o lado, vi uma espécie de coró no estofado do tal sofá. O encarando, não pude vê-lo se mover. Olhei para frente, fiquei alguns segundos assim e voltei a cabeça para o lado para o olhar novamente. Não acreditava no que via. Ele havia pensado em morar ali antes de mim. Isso era um absurdo, aquele sofá era meu. Tirei o cobertor de cima de mim e levantei para procurar meu Mp4. Precisava ouvir algo que me distraísse. Assim que o encontrei voltei para o meu novo habitat. Olhei novamente aquele ser que abrigava meu espaço e não o parei de olhar. Estava inconformada. Tentei relevá-lo ao escolher uma música. Hum... Que tal Losing my religion? Sim, seria o ideal. Espere! Preciso organizar minhas ideias; primeiramente lembrando o motivo que me fez mudar para aquele lugar... Pauso. Fixo o olhar no controle remoto e depois me viro para ver o tal ser que agora se movimentava com tanta sutileza que daria para afirmar que estava paralisado. Como ele consegue fazer isso? Não consigo me mover sem que os outros não percebam. Isso é incrível! Queria ser como ele... Espere! O que estou fazendo? Idolatrando este ser intruso e mesquinho? Não. Não posso deixa-lo me persuadir assim. Quanta fraqueza de personalidade, hein ''Georgie boy''!
Neste momento, não tocava mais a música de R.E.M e sim The Beatles. Não queria ouvi-los, não era interessante para o momento. Desculpe Sr. Coró, mas terei que trocar a música. Espere! Não preciso de sua aceitação, ok? Sou auto-suficiente. Posso fazer tudo! Posso ser dona deste sofá, mesmo você estando nele antes de mim; posso pagar meu próprio café; posso ouvir Ac Dc mesmo conhecendo só uma música deles e posso ser feliz vendo um filme qualquer... Qualquer? Que hipocrisia dizer qualquer. Foi ele que me trouxe a este sofá, foi ele que me levou a uma excitação que até então esta noite não havia me proporcionado. Um filme cheio de mim e que despertou meu sono, me fazendo conhecer esse tal coró... Tornei a encara-lo, e vi o que antes estava na vertical, agora estava na diagonal. Ele fez isso em uma fração de segundos. Como pôde ter sido tão ágil e discreto ao mesmo tempo? Eu o invejei tanto, que me fez continuar com o olhar fixo sobre ele, enquanto em minha mente passavam-se várias imagens distorcidas. Uma dessas imagens me provocou um certo desconforto: era eu o lambendo e em seguida o mastigando com fúria, dizendo-o adeus da forma mais bela. Pude tirar algo construtivo desta imagem: Tinha que dar um fim neste vilão. Como o faria? Bem, se eu gritasse, alguém acordaria, viria desesperado e eu pediria a essa pessoa que o tirasse dali imediatamente. Esse alguém bateria a mão na testa, franzindo os olhos de tanto sono e diria com o coração palpitando: 'Que horas são? Mais de meia noite? Não acredito que você me acordara para isso. Sacanagem...' Enquanto eu estaria sentada com as pernas dobradas, os joelhos beijando meus seios e os meus braços promovendo esse encontro tão propício entre os dois. Eu balançaria a cabeça, acenando que sim, com uma feição de pavor misturada com uma prece de misericórdia... Isso era o melhor a fazer. E por que não, ouvindo The beatles-Come together? Sim, algo digno por favor, a um ser de beleza tão Sul-Americana.
Neste momento, não tocava mais a música de R.E.M e sim The Beatles. Não queria ouvi-los, não era interessante para o momento. Desculpe Sr. Coró, mas terei que trocar a música. Espere! Não preciso de sua aceitação, ok? Sou auto-suficiente. Posso fazer tudo! Posso ser dona deste sofá, mesmo você estando nele antes de mim; posso pagar meu próprio café; posso ouvir Ac Dc mesmo conhecendo só uma música deles e posso ser feliz vendo um filme qualquer... Qualquer? Que hipocrisia dizer qualquer. Foi ele que me trouxe a este sofá, foi ele que me levou a uma excitação que até então esta noite não havia me proporcionado. Um filme cheio de mim e que despertou meu sono, me fazendo conhecer esse tal coró... Tornei a encara-lo, e vi o que antes estava na vertical, agora estava na diagonal. Ele fez isso em uma fração de segundos. Como pôde ter sido tão ágil e discreto ao mesmo tempo? Eu o invejei tanto, que me fez continuar com o olhar fixo sobre ele, enquanto em minha mente passavam-se várias imagens distorcidas. Uma dessas imagens me provocou um certo desconforto: era eu o lambendo e em seguida o mastigando com fúria, dizendo-o adeus da forma mais bela. Pude tirar algo construtivo desta imagem: Tinha que dar um fim neste vilão. Como o faria? Bem, se eu gritasse, alguém acordaria, viria desesperado e eu pediria a essa pessoa que o tirasse dali imediatamente. Esse alguém bateria a mão na testa, franzindo os olhos de tanto sono e diria com o coração palpitando: 'Que horas são? Mais de meia noite? Não acredito que você me acordara para isso. Sacanagem...' Enquanto eu estaria sentada com as pernas dobradas, os joelhos beijando meus seios e os meus braços promovendo esse encontro tão propício entre os dois. Eu balançaria a cabeça, acenando que sim, com uma feição de pavor misturada com uma prece de misericórdia... Isso era o melhor a fazer. E por que não, ouvindo The beatles-Come together? Sim, algo digno por favor, a um ser de beleza tão Sul-Americana.
domingo, 18 de março de 2012
O jeito é ser
Em tudo havia um questionamento. Ela nunca estava satisfeita consigo mesma. Quando não era o modelo do corte de cabelo, eram as palavras pesando em sua auto-estima. Seu pensamento sussurrava coisas sobre o amor, a fé e as pessoas- essa última lhe trazia ideias embaraçosas.
Ela queria um sinal divino, algo que a conduzisse a escolha certa. Estava profundamente exausta de sempre querer agradar tudo e a todos. Ela só queria ser. Só queria ir a uma sorveteria sem se preocupar com quem encontraria lá; dizer ''não'' sem se martirizar com a sua repercussão; estar só sem se sentir sozinha e sem a obrigação de procurar alguma companhia; se decepcionar; se alegrar e se apaziguar sem que ninguém a notasse... No-tas-se. No-tas-s. No-tas. No-ta! Sim, essa palavra ecoava em seus ouvidos causando um extremo desconforto e emburrando seus tímpanos, isso porque, para ''ser'' era necessário ser notado e ter notas boas que lhe trouxessem algum reconhecimento na tal ''escola da vida'' - será?
Não conseguia ter notas boas. As vezes acreditava ter herdado isso de sua mãe. Na verdade, acreditava ter herdado as escolhas e até mesmo as oportunidades que sua mãe teve ao longo da vida. Será possível? Se perguntava a cada vez que alguém a dizia que ambas se pareciam muito. Tudo isso a atormentava bastante, a ponto de impedi-la de executar o que havia planejado para um dia comum... Ela só queria uma confirmação. Confirmação de algo que nem ela mesma sabia se existia ou não.
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