quinta-feira, 19 de maio de 2011

reflexos matinais

            De olhos fechados, sentada no banco do ônibus e com a cabeça encostada na janela, pude enxergar o emaranhado de lembranças  se movendo dentro de mim como borboletas no estômago quando via o tal rapaz no corredor da escola, como bicicleta descendo a ladeira até o supermercado, como cambalhotas em um colchão bem macio, como um balão a gás escapado da mão de uma criança, subindo o céu indo de encontro com o finito.
           Ainda de olhos fechados, mas não mais olhando para o que estava dentro de mim, pude ouvir duas senhoras- dizem que conversas de senhoras possuem uma sonoridade nostalgica, e isso fora o identificador- conversando, uma delas disse:
           -É, eu ainda posso sentir aquele perfume...
           Ela continuou a descrever sobre o tal perfume, mas me fechei somente para aquela parte da frase. Qual seria o gosto daquela lembrança? Doce ou amarga? Agora de olhos abertos, bem abertos, podia ver a doçura no olhar daquela senhora, e de tão senhora, pude ver a amargura em suas rugas. Que contraste intenso. Se estivesse calada, sem pronunciar sua lembrança, afirmaria que ela era uma senhora morta; engolida pelo passado.
            Desci do ônibus, refletindo todo aquele momento e com os pés no chão, pude entender que lembranças são outras pessoas dentro de nós, e que se escondem nas marcas de expressões. Portanto coloquei os óculos de sol- a fim de me proteger- e comecei a caminhar contra o vento.
          

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